13/08/2008 16:35

Uma pulseira contra a violência doméstica





A partir deste mês, procure nos catálogos da Avon por essa pulseirinha azul. A "Pulseira da Atitude" só custa R$5,00 e cada centavo deste valor vai para o escritório regional do Unifem Brasil/Cone Sul (Fundo de Desenvolvimento da ONU para a Mulher).

A ação faz parte da campanha Fale sem Medo – não à violência doméstica, que é coordenada pelo Instituto Avon. A pulseira tem o símbolo do infinito em metal prateado, que, segundo a assessoria da empresa, "simboliza o futuro sem limitações para as mulheres, que merecem estar seguras, autônomas, saudáveis, para buscar seus sonhos e transformá-los em realidade".

E não é uma ação isolada, segue a campanha mundial da Avon Foundation, Speak Out against Domestic Violence, que existe desde 2004 e já investiu mais de US$ 6 milhões em ações com o objetivo de conscientizar a sociedade e reduzir os índices de violência contra a mulher, em várias partes do mundo.

Conscientizar a sociedade...todas as campanhas contra a violência são importantes, é óbvio! Desde que tragam no bojo alimento para reflexão e propostas de mudanças. Mas existe uma certa indulgência na fala "conscientizar a sociedade", não acha? Dá a impressão de que no fundo no fundo, nós, cada um de nós, de alguma forma está excluído do incômodo, NÓS, que lemos ou ouvimos a frase somos inocentes, culpados são sempre...os outros! Porque a violência não nasce em algum lugar lá bem lá fora de nós, nada disso, ela nasce no espaço mais escuro de nós mesmos, se alimenta do nosso medo e cresce até ocupar cada cômodo da casa, as ruas, as cidades, o planeta...

Ou você acha que não é violência bater numa criança, gritar com o motorista do carro ao lado, xingar moça do caixa do supermercado, controlar obssessivamente a vida dos outros, brigar na torcida do jogo de futebol, manipular o afeto do parceiro, macular, da forma que for, o corpo de quem quer que seja, o seu, inclusive...são inimagináveis as tantas formas de violência...

Dá para imaginar que uma em cada 3 mulheres apanham ou sofrem algum tipo de abuso, sexual, sobretudo, seja do pai, do marido ou de algum membro da família? Dá para entender o que nós, adultos, estamos fazendo com as nossas crianças? O documento da ONU sobre o assunto, de 2006, fala de "epidemia global de proporções escandalosas", fala 250 milhões de crianças que estão sendo agora, enquanto eu escrevo e você lê, sendo torturadas, abusadas, machucadas e mortas pelas mesmas pessoas que deviam protegê-las, cuidar delas e garantir o seu futuro!

E se, ainda, ousarmos olhar de frente os estudos que falam da violência doméstica contra os homens (sim, não precisamos nos iludir quanto a nossa capacidade de inflingir dor, certo?) vamos descobrir, por exemplo, que em um deles, mais de 24% dos homens relataram ter sofrido algum tipo de violência por parte de suas parceiras, seja essa violência definida como física (tapas, pontapés, socos) ou psíquica (ameaças, escândalos, humilhações, comportamento controlador). Que 1 em cada 9 homens nos EUA são vítimas de violência por parte de suas parceiras! Um em cada 9!!!?

E para que não haja dúvidas sobre o que é mesmo que estamos chamando de violência, transcrevo o que está no site do National Domestic Violence Hotline, dos EUA. Além da violência física, são consideradas formas de violência também:

Xingamentos ou humilhações
Gritos e ameaças
Tapas, bofetadas e empurrões
Ciúmes e desconfianças
Proibir alguém de estar com sua família e amigos
Arremessar sobre o outro objetos de qualquer tipo

No site Psiq Web, de Psicologia Forense, você encontra mais material para discutir esta questão com seu parceiro, seus amigos, sua família...porque no fundo, todos somos responsáveis por todos...

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enviada por Adília



10/08/2008 15:40

Pateta, o eterno pai fofo

Dia dos Pais, plantão no iG. Recebemos vários releases com novos estudos falando da importância da figura paterna para as crianças, do quanto essa figura vem se ampliando e tornando-se mais e mais complexa ao longo dos anos.

Quantas figuras de pai a gente conhece? Tem os pais biológicos, tem os adotivos, os que veêm os filhos nos finais de semana, os que cuidam dos filhos de outros homens, os que cuidam dos filhos de vários outros homens, pais de aluguel, pais coletivos, pais que são mães, pais jovens, muito velhos, pais de todas as cores, de todos os jeitos...novos pais!

Não importa que forma esta figura assume nas nossas vidas modernas, dizem as pesquisas, quanto mais próxima, comprometida e afetuosa ela for, melhor para as crianças.

Mas...que figura é essa? O que é que cabe na imagem de um pai?

E lembro dos desenhos do Pateta como pai, você lembra deles? São da década de 50, falam de um pai recém-nascido, arrumadinho, de terno, gravata e chapéu, voltando do trabalho para uma casa que ele sempre imagina impecável e nunca é, de um pai que apenas começa a aprender a dividir, a compartilhar, parceiro de uma mulher irrequieta, insatisfeita, uma "dona de casa de subúrbio americano" que também se deseja arrumadinha, impecável, e nunca é...mas falam da vida como eterno e bem-humorado aprendizado e deve ser por isso que gosto tanto deles!

De todo modo, imagino que mesmo os novíssimos pais vão se reconhecer na ingênua arrogância do "George", com sua inabalável confiança na própria competência, suas certezas, seus desajeitos, suas bem-intencionadas tentativas de lidar com o universo feminino, tão novo, tão estranho, de fraldas e de perplexidades, seu orgulho, seu cansaço, sua ternura...o mais frágil dos pais-heróis!











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enviada por Adília



04/08/2008 17:11

Africa: viagem virtual

Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário em todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
— Pai!
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.


Mia Couto, jornalista e escritor de Moçambique, sempre me faz lembrar que não há nada de morno na África, tudo tem a medida do exagero, do impossível, do inusitado.
´
E é assim que fiz minha África de fantasia e costurei com cores viscerais, extremadas, de primórdios e de esperanças...

Por isso fiquei feliz quando recebi esta mensagem da minha amiga Lélia. Tão difícil alimentar com imagens minhas fantasias sobre a África, que acabo ficando nas palavras...de Mia Couto, por exemplo. Agora não mais...porque Chegou no outlook, África, uma viagem virtual




enviada por Adília



01/08/2008 14:06

Uma vela para o Tibet

No dia 7 de agosto de 2008, milhares de pessoas no mundo todo estarão acendendo uma vela e colocando-a diante da janela. O gesto coletivo é sinal de solidariedade em relação ao povo do Tibet, na véspera da abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim.

Coisa bem simples, acender uma vela. E, talvez, ingênua. Não vai mudar nada, nem resolverá os conflitos existentes entre o Tibet e a China. Minha amiga, Margot, me diz que nem se vê mais nenhum monge budista pelas ruas de Llhasa, a capital do Tibet. Talvez eles nunca mais voltem. Mas a cada vez que uma cultura tradicional é ameaçada de extermínio, o mundo todo perde a memória, um pouco, ao menos...e sabemos menos de nós mesmos...

Não sei não, embora uma vela seja bem pouco, esses gestos antigos podem, quem sabe, trazer de volta um sentimento forte de união em torno de uma idéia, um idéia de paz...e milhões de velas, já pensou quanta luz?

Perguntei por e-mail ao criador da idéia, David Califa, um australiano de 52 anos, aposentado e que vive em Israel, como essa campanha que já tem 88.519.074 de adesões começou e ele me disse que o início tinha sido um simples convite no Facebook.

Logo, um grupo de pessoas aderiu a proposta e juntos eles criaram o Unity Network, cujo objetivo é mostrar para o mundo o poder que um único indivíduo tem hoje de mudar suas circuntâncias, de alterar o rumo da história. "Nunca isso foi possível antes", avalia David, "mas hoje, com os recursos de que dispomos, não podemos mais ficar quietos, podemos mudar nossa realidade, só precisamos ficar juntos".

David Califa deve acender a primeira das 100 milhões de velas que ele espera ver acesas pelo Tibet no dia 7 de agosto de 2008, às 21 horas (hora local).

Você também vai emprestar sua luz para a paz?





enviada por Adília



17/07/2008 15:52

Você sabia? O símbolo da paz está fazendo 50 anos





Quem nasceu depois de 68 deve achar que ele sempre existiu. Quem nasceu antes, talvez imaginasse, como eu, que era alguma inscrição hindu, nascida quando os jovens da minha época descobriram a Índia, a meditação, os mantras...

Pois não é nada disso. O símbolo mais tradicional de "paz" que a gente conhece nasceu, isso sim, na prancheta de Gerald Holtom, um artista inglês que recebera a incumbência de criar um símbolo para a primeira Campanha Pelo Desarmamento Nuclear, CND, na Inglaterra, em 1958. O trabalho de Holtom foi apresentado e aprovado pelo Direct Action Committee Against Nuclear War e selecionado para aparecer em público na primeira marcha contra a Guerra Nuclear, que entrou para a história como a 1st Aldemaston March, e reuniu centenas de pessoas numa caminhada de quatro dias desde Trafalgar Square, em Londres, até o Centro de Pesquisas Nucleares de Aldermaston, em Berkshire.

A ironia é que o símbolo da paz é, de fato, uma combinação de sinais militares. Holtom usou os símbolos de um tal de alfabeto semáforo, um sistema de sinais que utiliza os braços e bandeiras para transmitir informações. Não tinha noção de que isso existia, embora agora eu imagine porque os sinais de trânsito em São Paulo chamam-se "semáforos"...Mas já tinha visto algo semelhante nas pistas dos aeroportos.

Enfim, militarismos à parte, nosso amigo artista parece que era um fervoroso defensor da paz e que teria justamente escolhido usar os sinais deste alfabeto que representavam o N (de "nuclear") e o D (de "desarmamento") para expressar sua revolta, seu desespero diante da ameaça nuclear. Assim, os sinais que a gente vê no símbolo da Paz, sugerem alguém em atitude de desespero, com os braços estendidos para baixo, as palmas das mãos viradas para fora, como se perguntasse "e agora?", "por quê?"

Das caminhadas contra os armamentos nucleares, o símbolo caminhou pelos movimentos que chacoalharam a década de 60: estava lá nas explosões do Civil Rights que confrontaram negros e brancos nos EUA e também estava, vestido de flores, nas manifestações dos jovens hippies, da Califórnia às barricadas de Paris.

Tentaram bani-lo durante o apartheid na África do Sul, tentaram apagá-lo das paredes das universidades francesas, mas como todos os símbolos poderosos ele resistiu, engordou de significados, grita "liberdade", fala de "amor", conta histórias de "mudanças", e, afinal, vira símbolo da paz. Quem iria imaginar?

Gostou da historinha? Então entre no site e crie sua própria versão do símbolo aniversariante...é bem divertido e você ajuda a divulgar a idéia de que ainda hoje, justo agora, vale muito a pena falar de paz...


O símbolo da paz


O livro Peace, 50 years of protest


enviada por Adília



11/07/2008 12:06

A benção do pão

Abençoar a comida, orar antes das refeições, agradecer pelas bençãos recebidas da terra, são coisas tão antigas...pena que hoje ninguém mais tem tempo prá isso e bem poucos de nós conseguem chegar nas refeições com a calma interior necessária para entrar em sintonia verdadeira com o momento e com o alimento.

E no entanto...já li vários estudos que afirmam que alimentar-se de maneira mais consciente, mais atenta, mais calma, faz bem para a saúde e até ajuda a emagrecer!

Pelo sim pelo não, experimente: na próxima refeição, em vez de jogar-se sobre a comida, páre por alguns instantes, respire, aquiete-se, entre em contato com seu corpo e com o alimento e agradeça, ao seu Deus, à Natureza, à Terra, a si mesmo, ao seus pais, ao agricultor, não importa, o que é transformador é sua atitude diante disso.

Alimento é vida, não é alternativa, nem dá para fazer de conta que a gente não está nem aí para a comida, quando os hindus dizem que "tudo é alimento", eles não estão brincando...

É bem simples, na verdade, com a vantagem de que qualquer coisa que você inventar funciona: Que todos os seres que contribuíram para que esse alimento chegasse à nossa mesa sejam abençoados. E que nós possamos sempre nos alegrar por receber as bençãos da Terra

Se você, feito eu, se diverte fazendo pão, na hora de sovar e esmurrar, nunca deixe de "jogar" na massa umas pitadas de sentimentos generosos. "Abençoado é o Senhor, Rei do Universo, que faz nascer o pão da terra", é uma antiga oração dos judeus, viu só? Simples, e bela!

Encontrei no Beliefnet uma série de preces para abençoar as refeições. De todas as religiões. Bom apetite!


enviada por Adília



11/07/2008 11:42
Caríssimos,

Como já disse em outras ocasiões, às vezes os comentários são tão ou até mais interessantes do que o post.... que dá vontade de abri-los para todo mundo ver. Vamos ver no que dá?

enviado por: Rafael
Site: http://www.ireach100years.com

coitadoooo
Em: 11/07/2008 10:25:21


enviado por: maria luiza silva

Nenhum adolescente \"decide\" viver como ermitão, mesmo porque nesta idade não se tem formação suficiente para se \"saber\" nada, muito menos o que fazer da própria vida... o que será que aquela mãe lhe fez?... acho que quis \"guardar\" o filho para si mesma... pobre rapaz!
Em: 11/07/2008 09:26:12


enviado por: Paulo César Lomach

É de se admirar comentários tão transparentes e fecundos numa rede dominada por tolices prepetradas como verdades absolutas.
Longe vai a època que o pensamento era trazido a tona, numa tentativa de aclareamento ou entendimento onde o ser humano se encontrava e se munia de respostas.
Hoje um shopping digital nos manipula para uma sanha de mercado que nos oprime e esvazia.
Este homem,ermitão ou fugitivo, é um detalhe sobre o qual havemos de nos debruçar, aguçar o espírito, para que diante dele nos encontremos por inteiro, longe desta tonta figura que vemos no espelho, escravo das manipulações diárias a que somos submetidos, sorridentes e infelizes.
Em: 11/07/2008 08:35:25


enviado por: Herbert

Que reflexão contundente!
Viva a Sociedade Alternativa! Viva! Salvem os desviantes, os delirantes, os criativos-alternativos forever!
Em: 10/07/2008 19:13:40


enviado por: Alexandre Reis

Adilia, realmente o mundo pós-moderno fascina por suas incongruentes vicissitudes. Tudo é aqui e agora ao mesmo tempo. Adorei saber que vc tem este canal de comunicação e assim podemos nos conhecer melhor. Moro em Brasília, sou professor de Dança Contemporânea e tenho um projeto aprovado pela Lei Rouanet junto com mais um monte de outros artistas do país que estão esperando por patrocínio. Já estou há muitos anos neste mesmo procedimento, envio documentos sazonais ao MINC e pasme, nem estão me respondendo. Faltariam pessoas por lá para compreenderem os desígnios de nossos anseios? Eu também ando preocupado com o mundo pós-moderno, com essa desorganização em busca de entropia máxima por meio das comunicações. J. Habermas também escreveu muito sobre isso, embora eu esteja me dedicando mais aos filósofos da Estética ultimamente, entre eles Hegel e Schiller, não eu não sou nenhum cientista social, mas meu projeto é de cunho social sim, minha formação é em Educação Física e já me envolvi em muitas questões para justamente melhro me posicionar neste admirável mundo pós-moderno. Te peço que conheça o que faço e que estabeleça um novo contato no futuro, caso se interesse em conhecer minha proposta pedagógica e artística. Abraços e sucesso. Alexandre Reis. Veja o site deste video no youtube, mas desconsidere o Banco BMG, eles enrrolaram e não nos patrocinaram em nada: http://www.youtube.com/watch?v=cV_-hQLZx44
Em: 10/07/2008 18:40:44



enviada por Adília



10/07/2008 14:57

Guy Debord e os ermitões do mundo moderno





Um homem de cerca de 50 anos, com uma cabeleira de mais de 3 metros, foi encontrado hoje, dia 10 de julho, na casa onde vivia com sua mãe, na França, melhor, numa daquelas cidadezinhas com cara de nada-de-mal-pode-acontecer-aqui da Côte d'Azur francesa.

Os policiais encontraram Michel, muito pálido e em estado de desnutrição, porque os vizinhos, preocupados porque fazia dias que não viam sua mãe, de 76 anos, chamaram a polícia. A velha senhora, na verdade, estava morta, sentada numa poltrona, e o filho, um pouco "perdido", mas consciente do mundo exterior e se expressando bem, não parecia se dar conta da morte da mãe.

Os vizinhos sabiam da existência do homem que, segundo eles, desde os 14 anos havia decidido viver fora da sociedade. Um ermitão dos tempos modernos.

Mas...deve ser por ter assistido -- e resistido -- ao filme-documentário do Guy Debord, La Societè du Spectacle, fiquei pensando nesse ermitão que vira notícia de agência internacional, neste menino de 14 anos que decide sair do mundo, neste homem de 50 perplexo e desorientado...

Homens pós-modernos poderiam ser definidos como seres que não apenas são incapazes de se reconhecer no trabalho que realizam (como os "trabalhadores do mundo uni-vos" de Marx), mas também não usam seus recursos, talentos e conhecimentos para se construírem como seres humanos "melhores", ao contrário, todo esse esforço vira "competências" com valor garantido no mercado, "mercadorias" para se comprar e vender...deu para entender? Pois piora: além de não se reconhecerem nem no produto que ajudam a fabricar, nem nos talentos que vendem no mercado da competência, esses seres pós-modernos vivem num mundo que se oferece sempre fragmentado, tudo que temos e sabemos do mundo são pedacinhos de informações, títulos e leads de jornais, cacos de notícias espalhados, sem crítica, nem reflexão, pelo planeta em frações de segundos...descrentes de uma narrativa que reúna as minúsculas peças desse quebra-cabeça, nós vivemos esbarrando uns nos outros, sem nos conhecer de verdade, sem saber direito a quem servimos, escravos das idéias de segunda mão que se apresentam todos os dias nas telas de todos os tamanhos que nos refletem, vazios...

A saída? Não sou nenhuma especialista na obra do grande intelectual francês, longe disso, mas imagino que ele gostasse da idéia de que eventualmente, mesmo num mundo aparentemente tão sem saídas, alguns de nós conseguem escapar...atormentados, muitos -- o próprio Guy Debord se suicidou em 1994 --, perplexos e desatinados, outros tantos...mas há de existir quem consiga se enxergar neste espelho de forma mais generosa, sem sucumbir...

Quanto ao ermitão francês, quem sabe o que esse reencontrão com o mundo vai reservar para ele?

Leia aqui a íntegra da notícia no Nouvel Obs

enviada por Adília



07/07/2008 00:39

O teatro dos sonhos e as camas insólitas de Thierry Bouet






Acordei querendo dormir numa cama nova, num quarto novo e ter sonhos com imagens novas, surpreendentes, talvez de um outro eu...consegui arranjar um cantinho para colocar uma almofada de meditação, troquei a colcha da cama, tirei os livros de um lado, coloquei no outro, pronto, só faltam os sonhos...

E ainda rindo de mim mesma, lembrei de um ensaio que vi na versão mais "estilo de vida" da revista "The Economist", "Intelligent Life", chama-se e é excelente. O tal ensaio era sobre um fotógrafo francês que passou anos tirando fotos de camas. Sim, as camas e seus donos, é claro!

Thierry Bouet é um parisiense, ex-advogado, que se define como alguém "que se infiltra nos acontecimentos e nas comunidades buscando nelas fraturas e possibilidades de sonhos". Passou, segundo descubro, dois anos pedindo para ser convidado a conhecer a alcova das pessoas e fotografar o "teatro dos sonhos" mais inusitados, mais loucos.

O resultado são imagens que fazem comichão na alma, ninhos insolentes e coloridos, caixas mágicas que dão boas vindas a todas as fantasias e aos sonhos mais absurdos.

E a gente fica aqui imaginando que seres estranhos somos nós que rodeamos a hora de dormir de tantos adereços, como se assim enfeitada a noite fosse menos assustadora e o dormir menos semelhante à morte.

"Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer – dormir –
Dormir! Talvez sonhar."
É a fala de Hamlet, de Shakespeare, na tradução de Millôr Fernandes.

Agora navegue pelas camas de sonho de Thierry Bouet e alimente seus sonhos...



enviada por Adília



29/06/2008 20:14

Festa no mar, dia de São Pedro!



A foto é de Eliseo Fernandez, da Reuters


20 de junho, Dia de São Pedro, festa no mar. Na foto, uma imensa estátua de São Pedro avança pelo mar durante a procissão anual em homenagem ao santo padroeiro dos pescadores na cidade de Valparaiso, no Chile. Todos os anos, em várias cidades à beira-mar espalhadas pelo mundo cristão, os pescadores aprontam os barcos, enfeitam os mastros de fitas e saem para festejar o apóstolo mais "humano" de Jesus...

“ E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque isto não te revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus.

Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;

E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.”
Mateus 16:17-19

Você lembra desse trecho do Novo Testamento? Pedro e pedra, Pedro e as chaves do céu, Pedro e a construção da Igreja Católica. Os versículos de São Mateus que você acabou de ler são considerados há séculos, a prova de que Cristo instituiu o apóstolo Pedro como cabeça da sua futura igreja e, de que, em função disso, ele seria o responsável pela unidade dessa congregação (igreja, vem do grego ecclesia, a comunidade ou o templo dos cristãos), pela sua firmeza diante das tempestades -- daí a associação com a pedra – e pelo seu crescimento nos séculos que viriam.

Uma missão e tanto para o apóstolo, que nos evangelhos aparece como um pescador, espontâneo e impulsivo, capaz de defender seu Mestre e, logo adiante, fingir que não o conhece. Esse personagem fascinante e contraditório se transformará, depois da morte do mestre, no líder sólido e determinado da recém-nascida comunidade de cristãos. Pelo menos é isso que os poucos relatos que temos de sua vida – e de seu martírio – mostram.

Pedro na verdade chamava-se Simão, um nome que faz adivinhar sua origem grega. Além do grego, é quase certo que também falava aramaico, porque era judeu. Seu sobrenome é Petros, em grego, Képhas ou Chépha, em aramaico. E significa rocha. Jesus o chama Bar Jonas, que é uma expressão em aramaico que significaria “filho de João ou de Jonas”, um jeito bem comum na época de construir sobrenomes.

Depois da morte do mestre, Pedro viaja muito, mas permanece morando em Jerusalém. Por volta do ano de 44, ele é preso por ordem de Heródoto Agripa, mas consegue escapar miraculosamente (“as portas da prisão se abrem e as cadeias tombam”). O apóstolo anuncia que vai partir para “outro lugar”, mas não diz para onde. Isso é uma complicação, porque, se até então o que acontece está registrado direitinho nos Atos dos Apóstolos da Bíblia, depois desse momento, os registros são bem poucos. O fato é que ele deve ter viajado mesmo e muitas igrejas, em toda a região ao redor do Mar Mediterrâneo pretendem ter sido fundadas por ele.

O apóstolo Pedro, embora não tenha sido o fundador da comunidade cristã de Roma, passou lá seus últimos anos e foi martirizado, durante a perseguição aos cristãos promovida pelo imperador romano Nero, por volta do ano 64. Dizem que Nero colocou nos cristãos a culpa do famoso incêndio de Roma. Por conta disso, os cristãos foram caçados violentamente. Pedro foi crucificado de cabeça para baixo, em um grande espetáculo promovido pelo imperador nos jardins do palácio, no monumental Circo de Nero, que ficava na região do Vaticano, na margem direita do rio Tibre.

No lugar onde Pedro foi enterrado, o imperador Constantino mandou erguer uma basílica no início do século 4. Durante toda a Idade Média, esse templo foi local de peregrinação e, hoje, ao seu redor, se ergue a imponente Basílica de São Pedro, construída no século 16. É aí que o papa vive. Mas o Pedro dos pescadores, esse vive lançando suas redes no mar...

enviada por Adília



24/06/2008 19:36

Procuram-se avós

Saudades de colo de avó? Anda precisando de um avô que ensine você a jogar xadrez? Ou quer esquecer do presente e passar alguns momentos ao pé do fogo ouvindo histórias do passado?

Em qualquer caso, se você não tem mais uma avó ou um avô à mão, a internet resolve seu problema de falta de "contatos intergeracionais". Na França, já existem sites de relacionamentos que promovem só esse tipo de encontro: "Menino de 8 anos precisa de um avô para levá-lo ao jogo de futebol"; "Menina de 10 anos procura avó para ensiná-la a fazer tricô"; "Gêmeos de 6 anos procuram desesperadamente um avô para contar histórias antes de dormir"...

No site Super Grands Parents vale também o contrário: "Avó de 65 anos, craque em navegar na web, cujos netos andam com a mãe em algum lugar ignorado do mundo, procura..."; "Avó de 78 anos, ex-piloto de avião, procura neto que goste do assunto para iniciar uma coleção de aeromodelos"; "Avó de 80 anos, totalmente lúcida, mas abandonada pela família, procura netos "postiços" e desafia: sou craque em vídeogames!"...


Pois, é...não sou saudosista, de jeito nenhum, meu tempo é sempre agora.. Mas confesso que fiquei confusa...será que em tempos de supernannies muito mais sabidas das artes de educar crianças perfeitas do que mães comuns, estamos vendo nascer a era dos "avós profissionais", muito mais avós do que os avós comuns?

E será que isso não sugere que talvez a gente ande à cata da família ideal? Afinal, por que aguentar uma familia assim chinfrim, fuleirinha mesmo, cheia de defeitos, mau-humor de manhã, impaciência no final do dia, falta de tempo, falta de jeito, se podemos ter, nem que seja no mundo virtual, a família dos nossos sonhos?

Resta um consolo. Para os que se recusam a desistir de competir com os "profissionais" do assunto, existem também sites cheios de dicas, idéias e recursos online para avós... Teste este aqui, My Grand Child, é muito fofo, aliás...

enviada por Adília



10/06/2008 00:54

Chegou no outlook...Zé Carioca e Pato Donald no Rio



Depois de tanto tempo sem escrever, acumularam-se muitos "chegou no outlook", na minha caixa de e-mails...alguns inspirados, outros sérios, outros ainda mais moralistas. O e-mail da Maria Eugênia, no entanto, vinha com a promessa: "É uma delícia!" Comecei a assistir e acabei toda respingada com as tintas coloridas e exageradas que a Disney usou para falar de um Rio de Janeiro talvez um tanto folclórico, mas, com certeza, muito, muito mais saboroso... Ou seja, uma delícia!
enviada por Adília



10/06/2008 00:42

Chegou no outlook...o yoga dos bebês



Ok, a gente adora bebês! Porque a Natureza usou todas as suas armas secretas de sedução nos filhotes e caprichou nos mamíferos...eles são fofos, pequenos, roliços, macios, quentinhos, amorosos e alegres. Só não tinha me dado conta do quão craques eles são em...yoga! Assista e você também vai ficar com vontade de imitar seu pequerrucho no alongamento!
enviada por Adília



08/06/2008 06:58

A Casa Cor e as cavernas masculinas



Casa na árvore de Fernanda Abs e Fred Benedetti

Todo ano vou à Casa Cor. Gosto de saborear esta vitrine do viver em casa. É claro que, como todas as vitrines, nem sempre a gente gosta de tudo que vê. Lembram daquela Casa Cor onde a tecnologia era a estrela absoluta de ambientes em que era impossível imaginar humanos vivendo? Não sei mais em que ano foi, mas lembro que saí exausta...e vazia!

Já li vários comentários sobre a Casa Cor 2008 e deixo para os especialistas a árdua tarefa de fazer a triagem das tendências e avaliar todos os detalhes.

Mas aquela Cabana do Roberto Migotto é coisa para se pensar...a tal cabana, aliás, versão nada rústica daqueles refúgios de caça que povoam os bosques da imaginação, junto com a Casa na Árvore, o Chalé de Golfe, a Garagem cheia de vasos de murano, me fizeram viajar pela idéia de que talvez estejamos antecipando um tempo de buscar dentro das casas um espaço mais masculino, onde caibam os jeitos dos homens estarem no mundo.

E fico surpresa ao ler na CNN um artigo com o título sugestivo de "Porque ele precisa de um canto só seu". Os homens andam em busca de suas cavernas, avisa a reportagem.

Um santuário masculino ou "mantuary", em inglês. Lugar onde acolher tudo que não cabe nos espaços mais sofisticados, caprichados e, cá prá nós, femininos do restante das casas modernas: do vídeo game às TVs gigantes, passando pela coleção de gibis, de velhos discos de vinil, memorabilia de esportes, gadgets de todos os tipos.

Um canto onde os homens podem talvez se comportar um pouco menos "bem", receber os amigos para intermináveis sessões de Halo 3 e piadas escatológicas e machistas, longe dos ouvidos femininos, longe das culpas, lembrar de tempos na garagem tocando guitarra e ouvindo música bem alto...gritos primais, batcavernas, vai saber do que sentem saudades os nossos homens modernos, urbanos?

Junto com o espaço, viria o tempo. Um tempo para redescobrir camaradagens, gargalhadas, do que eu gosto mesmo afinal, do que sinto falta. Meu marido, logo depois de uma das nossas separações (foram algumas nestes 30 e poucos anos) me disse: "incrível é descobrir que você não tem a quem culpar pelas coisas que não consegue fazer, pelos sonhos que não viveu, pelas horas disperdiçadas, de repente, é tudo seu!" Sim, uma caverna só faz sentido se for para você descobrir-se dentro dela...

Está certo que a visão Casa Cor destes espaços "masculinos" é refinadíssima, mas a imagem de uma caverna ultrasofisticada, povoada de confortos e maciezas cheirando a grama molhada, a bicho e de lembranças estrangeiras...não sei não, mas vai ter muita mulher disputando um pedacinho...


Clique para ler o artigo da CNN

E no blog "Mantuary", uma amostra do estilo novo 'caveman'

As fotos são do site da Casa Cor 2008, de São Paulo


A Cabana de Roberto Migotto




A Sala do Hobby do Dono da Casa, de Vanessa Feres



enviada por Adília



05/05/2008 01:56

Onde você estava em maio de 68?





Onde você estava em maio de 1968, hein?

É claro, talvez você seja jovem demais, talvez até pense que o mundo, tal como você o experimenta todos os dias, sempre foi assim. Que os velhos à sua volta nasceram velhos. Que sua mãe sempre foi "aquela santa". Que a gente sempre pôde "botar a boca no trombone" e falar o que viesse à cabeça. Que garotos e garotas sempre andaram pelo mundo juntos, em bandos, mochileiros, andróginos. Que a juventude sempre foi esse espelho universal no qual todos precisam se ver refletidos, independente da idade.

Pois é, houve um tempo em que existia um silêncio de todas essas coisas.

E, então, houve maio de 68.





E, em Paris, os jovens ocuparam as ruas do Quartier Latin, o bairro dos estudantes, onde fica a mais venerável das universidades da França, a Sorbonne. E, na falta de qualquer ideologia, de carta de princípios, de projeto, de declaração de intenções, inundaram o resto do mundo com slogans: "O poder é um abuso. O poder absoluto é um abuso absoluto". "É proibido proibir". "A ação não deve ser uma reação, mas uma criação". "Esqueçam tudo que aprenderam. Aprendam a sonhar". "A Natureza não criou nem senhores nem servidores. Não queremos dar nem receber ordens".

E logo, esses gritos foram sendo ouvidos aqui e ali, cada vez mais longe. E se misturaram a outros, estrangeiros...

A década inteira foi uma gritaria, a bem da verdade. E a rua era o grande palco. Nos anos 60, negros e brancos se confrontavam violentamente nos EUA, Nelson Mandela foi condenado à prisão perpétua na África do Sul. Protestos contra a Guerra do Vietnã e as bombas nucleares ocupavam as ruas de Londres e os órfãos políticos de Péron pediam sua volta nas ruas de Buenos Aires. Protestantes e católicos se enfrentavam nas ruas da Irlanda, nos primeiros dos muitos Bloody Sunday que durariam ainda mais três décadas. E o silêncio invadia as ruas de Praga, depois da passagem dos tanques soviéticos.

Lembro da minha avó chorando no dia em que o presidente americano, John F. Kennedy, foi assassinado, em 1963. E de novo, quando Martin Luther King morreu, também assassinado, em 1968. Eu tinha então 14 anos...Tudo aquilo era meu. O sonho, a tristeza, a esperança. Aqueles estudantes nas ruas eram tudo que um dia, com certeza, eu também seria. As ruas eram o destino. Enquanto isso, devorava todos os livros de Herman Hesse e Aldous Huxley, já tinha passado pelo escracho de Bukowski e pelo vazio terrível do "Apanhador no Campo de Centeio", não imaginava nem de longe um dia ser igual à minha mãe, acreditava num final feliz para as utopias, morria de medo da loucura, das botas dos soldado, de me perder dos meus sonhos, de viagens sem volta e dos sistemas totalitários.

Em maio de 68, eu tinha acabado de fazer 14 anos, era recém-chegada em São Paulo, vinda do sul e, como outras tantas garotas comecei a fumar escondido para fazer como os meninos, a disfarçar meu jeito de "boa moça" atrás do riso alto e dos modos soltos, a "domar" a timidez na fala engajada, a não ter medo da nudez, nem ter vergonha de chorar...Mas não tinha nenhuma dúvida de que valia a pena crescer num mundo assim "em construção": "o brave new world, that have such people in it"...Só era preciso esperar...

E você, onde você estava em maio de 68?

O vídeo deste momento existe no You Tube, mas apenas o link está disponível: http://www.youtube.com/watch?v=qbhxy-A22aQ

E existe esse outro, com as manchetes de jornal e entrevistas dos líderes do movimento estudantil cujo objetivo era "ocupar 'pacificamente' o Quartier Latin, o bairro latino de Paris" ou, nas palavras de Jean Paul Sartre, o filósofo mais francês, "a eles só restou a violência, porque eles não querem entrar no jogo dos seus pais e não aceitam meias concessões"...




Neste site você encontra fotos incríveis da Primavera de 68 em Paris, pena que não tenham legenda, mas aí já seria querer demais, né?

E aqui, uma coleção dos cartazes que enfeitavam as manifestações


Ouça o discurso histórico de Martin Luther King em Washington, falando do seu sonho de que um dia "todos os homens, independentes da cor, fossem iguais e que crianças negras e brancas pudessem se dar as mãos"


enviada por Adília



28/04/2008 08:35

Um dia para flanar em Paris...





Viagens colocam você fora de contexto. Existir numa outra paisagem subverte nossas coordenadas o bastante para nos tornar de novo as aparvalhadas, perplexas e agradecidas criaturas do início de todas as coisas...

Paris é para ser vista através dos sabores e dos cheiros. Nesta primavera, a cidade cheira a bala, a "gourmandise". Barraquinhas de crepes soltam a todo minuto fornadas de aromas adocicados que lembram infância, fogão quente, café, lanches da tarde...

Se tivesse que fazer um guia "Toques de Alma" para passar um dia em Paris, com certeza teria que começar com um café com croissant e manteiga, sentada no cais do Sena da Igreja de Notre Dame que surgiria, pálida, por trás da xícara quente, contra um céu azul aguado e árvores de folhas frescas. Mas seria óbvio.

Menos óbvia é Saint Sulpice, na rua que leva o mesmo nome, metrô idem. E também tem um café, bem na frante. Algumas igrejas são tão perfeitamente construídas que hoje são lugares onde se vai para ouvir música, de tal qualidade é o som que passeia por entre as colunas e arcos anônimos, fiéis e atentos...torça para ter sorte e você vai chegar lá justo na hora de algum concerto!


Logo ali ao lado, na Place Saint Sulpice, número 8 -- ou 8, Place de Saint Sulpice, como costumam registrar todos os endereços os franceses -- fica a Maison Thuillier, La Pastorale, uma lojinha minúscula, mas que tem a maior coleção de "santons", aquelas figurinhas de argila nascidas na região da Provence na França e que animam os presépios franceses. Essas são do mestre Marcel Carbonel. São infindáveis personagens, folclóricos, nascidos das tradições dos camponeses nas várias regiões da França: o prefeito, a vendedora de flores, o jovem caçador, o casal de noivos, o casal de velhos sentadinhos no banco, o músico, a cigana, o camelo dos reis magos, as ovelhas, o burrico carregado de frutas, a jovem padeira, o homem com a lanterna tentando enxergar o caráter que os homens escondem na sombra...Todos vindo ver o Menino Deus recém-nascido. E para aqueles que eventualmente arranjem razão para criticar o aspecto pouquíssimo ortodoxo da cena, uma lembrança: naquela noite mágica, cabem todos os seres, os próximos e os distantes, os que estavam nos capos e seguiram as estrelas, os que estavam por perto e vieram "dar uma espiadinha", animais e frutos da terra...

Os rios acompanham as cidades, são parceiros. Viajar é navegar nestes rios, enquanto a gente tenta se tornar parte, respirar o ar e receber o céu. Paris recuperou o seu rio, e, além daqueles tradicionais "bateaux mouches", turísticos, com direito a guias tentando animar você, colocou barcos-ônibus, os "bateau bus", que simplesmente levam pessoas de um lado para o outro, sem explicações, em paz para saborear as tardes lindas de primavera! Basta chegar na beira do cais, tem anúncios do serviço por toda parte.


Viajar na Europa, em geral, é entender a dimensão de algumas palavras briguentas, "cidadania", "pátria", "país". De certa forma, e porque estão tão mais colados na vida uns dos outros, eles por aqui estão bem mais preocupados com estas questões. Diferenças e igualdades são percepções que precisam ser reconstruídas, refinadas, redesenhadas na cabeça e no coração dos homens. E o mais novo museu de Paris, o Quay Branly, que também é a mais nova criação do arquiteto Jean Nouvel, autor do projeto do Institut du Monde Arabe e da Fondation Cartier pour l’Art Contemporain, ambos considerados polêmicos, transgressores, mas extraordinariamente, ao menos do ponto de vista da autora deste blog, belos...

A idéia aqui é apresentar objetos e artefatos vindos dos rincões não-ocidentais do planeta, África, Oceania, Asia e Américas, através de múltiplos olhares. No Quay Branly, o olhar etnográfico convive com o olhar do artista. Quando é que um produto cultural vira obra de arte? E as salas do Quay Branly, de pés direitos altos como os dos templos, parecem responder: sempre. E aí você percebe quão longe está das estantes com jeito de laboratório atulhadas de bizarrices e aberrações de povos ditos "primitivos" dos museus tradicionais. Aqui é o lugar onde o viver vira arte. É no cotidiano, nos objetos sagrados, na música e no canto, na cozinha e no enfeitar-se que os seres humanos expressam sua criatividade e encontram sua graça e seu encanto.

Por fora, o museu parece brincar de Lego com a cidade. Cubos em tons de terra saem abruptamente das fachadas e uma gigantesca parede-jardim, viva, orgânica, selvagem, acolhe 15 mil espécies vegetais vindas do Japão, da China, da América e da Europa Central. Provoca vertigens: "afinal, quem disse que terra acontece só no chão?" A terra, amigos, caminha no céu...Para experimentar o museu, navegue pelo site oficial.





Imagino que só numa terra onde comer é uma experiência muito terrena e sensual, de um lado, e muito sofisticada e rebuscada, de outro, um fabricante de chocolates se definiria como: Michel RICHART, le créateur d'émotions gustatives, ou seja, "Michel Richart, criador de emoções gustativas". A indicação da Chocolateria do Mestre Richart como sendo o santuário do "melhor chocolate do mundo" foi da Tania, mulher do Arnaldo, que passou para Flávia, que passou para mim, valeu cada centímetro da caminhada até o número 258 do Boulevard Saint Germain. Descobri que chocolates são, sim, emoções, para se viver de olhos fechados...Clique aqui para navegar pelo site do Mestre do Chocolate.


Volto para o hotel, com a memória do chocolate com recheio de cassis na alma...adoro me sentir turista, colecionadora de cliques, de memórias, de cheiros, sabores, cores e histórias para compartilhar na volta.

enviada por Adília



23/04/2008 06:36

Festa para São Jorge em Londres

O sol não veio, mas São Jorge não falha e, embora não seja feriado, os londrinos vão festejar o dia do seu santo padroeiro como se deve: festas na rua!

Ano passado, o elenco de "Monty Python's Spamelot", o musical inpirado no filme "Monty Python em busca do cálice sagrado", de 1975, comandou o show em Trafalgar Square, um dos lugares de Londres onde tudo acontece. E quebraram um recorde: o maior número de pessoas tocando numa orquestra de cocos!!! Foram 5567 criaturas morrendo de rir contra as 1785 anteriores, em Nova York.






Este ano, o foco da festa é a comida. Um Festival da Culinária Inglesa vai ser montado na mesma praça, Trafalgar Square, patrocinado pela prefeitura da cidade e oferecido pelo Borough Market, um dos mais antigos mercados de Londres. A comilança, que começa na hora do almoço e acaba quando a comida acabar, inclui delicadezas, como os queijos de Neal’s Yard e aquelas geléias que só na Inglaterra eles sabem fazer. Mas inclui também aqueles clássicos da culinária britânica de nomes praticamente incompreensíveis, como "Shell Seekers Dorset diver caught scallops and shellfish" (?) e outros nem tanto, mas que prometem sabores no mínimo interessantes, ainda que um tantinho "pesados", o que teria, com certeza, agradado o cavaleiro sempre em busca de dragões para lutar que foi São Jorge, como "salsichas de porco e gengibre" e "javali da Sillfield Farm em Westmorland"...imagino que tudo regado a muita cerveja!


Festa na rua, em geral, é sinônimo de música, dança e gente brincando de circo, aproveitando a chance de capturar o olhar das pessoas. No caso aqui da festa de São Jorge, grupos de teatro e companhias de dança tradicionais, como o Greenwich Dance Agency e o Natural Theater Company vão incorporar o espírito da comilança em suas apresentações. Pena que meu avião de volta para o Brasil parte bem no melhor da festa!


No finzinho da tarde, o elenco do Shakespeare Globe Theater vai se apresentar num barco que percorre o Tâmisa ao sabor dos versos do maior dos poetas...


Pena mesmo que está na hora de ir embora...mas quem sabe no ano que vem?

E se você quiser saber mais sobre os eventos do dia de São Jorge ou se divertir com as imagens da festa, clique aqui
enviada por Adília



22/04/2008 06:00

Em Londres: aniversário de Shakespeare e festa de São Jorge





Em Londres, esperando pelo aniversário de Shakespeare, pelo dia de São Jorge e pelo sol!

Disseram que ia ser um dia "sunny" e lá fui eu para o cais, atrás da Londres de Shakespeare...difícil, em 1666, um gigantesco incêndio que durou 5 dias, destruiu mais de 13 mil construções, ou seja, boa parte da cidade que espreguiçava uma paz recém conquistada, uma rainha esclarecida, a Elizabeth I dos filmes recentes, e o ar fresco que vinha de um Novo Mundo cheio de estranhezas, também recém-achado pelos europeus.

Da cidade apinhada que se enrodilhava em ruelas de pedra sobrou bem pouco. Aqui e ali, uma fachada, um muro...do incrível "teatro elizabeteano", uma arena circular de cinco andares, ao ar livre, erguida sobre pilares e colunas de carvalho, não restou nada. Apenas fragmentos que permitiram a construção há 11 anos de uma réplica quase perfeita do teatro original.

É ali, no Globe Theater (cuja foto você vê lá em cima), que vão se reunir num cortejo os apaixonados, os viajantes, os curiosos, os ciumentos, os enlouquecidos, os valentes, os poderosos, os perdedores, os bons e os nem tanto assim, crianças e velhos, mulheres e homens, gente de ontem e de hoje porque são todos personagens do maior poeta inglês, talvez do maior de todos os poetas, ponto. E cujo aniversário, os ingleses comemoram no dia 23 de abril, uma certa arbitrariedade histórica, aliás, porque ninguém sabe ao certo se esse é mesmo o dia correto em que nasceu Shakespeare.

Não faz mal, os humanos suprem a realidade com a imaginação e fazem coincidir o aniversário do poeta com o dia de São Jorge, o padroeiro da Inglaterra. O que é outra intromissão da fantasia na história porque ninguém até hoje conseguiu associar nenhuma figura que realmente tenha existido com o santo e não é por falta de esforço de pesquisa: teólogos e especialistas em hegiografia têm tentado "costurar" na realidade histórica os relatos fabulosos atribuídos a São Jorge.

Um desses estudiosos, e que é citado com frequência quando o assunto é "afinal, quem foi São Jorge", Hippolyte Delehaye, no livro Les legendes grecques des saints militaires, publicado em Paris, em 1909, conta que o mais antigo relato que temos da vida do santo é um fragmento do século 5. Nele, o futuro padroeiro da Inglaterra é "cheio de extravagâncias, além do imaginável", mesmo para um santo. De fato, além de ser por três vezes cortado em pedacinhos, enterrado vivo, consumido pelo fogo e a cada vez ressuscitado pelo poder de Deus, tem sempre a história do dragão...


Um terrível dragão ameaçava a cidade de Selena, na Líbia. Seu hálito era tão ruim que havia transformado as terras em pântanos e cada vez que se aproximava da cidade, provocava pestes e doenças. Para matar sua fome e mantê-lo afastado, os habitantes de Selena sacrificavam dois carneiros por dia. O tempo passou, no entanto, e chegou o dia em que todo o rebanho já tinha sido abatido. Desesperados, os selenos, começaram a sortear vítimas humanas para saciar a terrível criatura. São Jorge chegou na cidade justamente no dia em que a jovem filha do rei, vestida de noiva, estava sendo preparada para morrer nas garras do dragão. Apesar dos apelos da jovem para que o cavaleiro fugisse daquele lugar onde a morte era certa, o santo não se mexeu e, quando o monstro surgiu das profundezas do pântano, trespassou-o com um único golpe de sua espada.

Em seguida, levou a moça de volta à cidade, a princesa conduzindo o dragão, como um carneirinho, pela coleira improvisada que o santo havia feito com o cinto do seu vestido de noiva. O rei, feliz como todo o rei, ofereceu toda sua fortuna para o estranho e valente cavaleiro com a cruz vermelha na armadura. Mas São Jorge recusou. Pediu que todos se convertessem e que o tesouro do rei fosse distribuído entre os mais pobres.


A lenda está registrada numa compilação de outras 180 histórias de santos no livro A Legenda Áurea, um clássico publicado há quase 750 anos, pelo frade dominicano Jacques de Voragine, e que até foi traduzido para o português (Editora Civilização, de Portugal).

São Jorge é o santo padroeiro da Inglaterra desde 1415, segundo leio no site da Royal Society of Saint George, quando os ingleses, sob o comando de Henrique VI, lutaram e venceram a Batalha de Agincourt, contra os franceses. Desde então, é sob a bandeira com a cruz vermelha sobre fundo branco que os ingleses lutam, e é pelo santo que os soldados gritam antes das batalhas.

"Por Henrique, pela Inglaterra e por São Jorge!", exclama Henrique V, no mais famoso brado de guerra, na peça que leva seu nome, escrita em 1559 pelo poeta William Shakespeare. Feliz aniversário!

Para quem quiser saber mais

A aniversário de Shakespeare marca o início da temporada do Globe Theater. Este ano, a peça que está sendo montada é Rei Lear





Na exposição permanente do Globe Theater, um painel lembra: "A gente está sempre citando Shakespeare", mesmo sem nem se dar conta disso.




enviada por Adília



02/04/2008 11:12

Chegou no outlook...Wafa Sultan, uma mulher valente



Não existe choque de religiões, não existe choque de civilizações, existe, sim, um choque de mentalidades, um choque entre o passado e o futuro, entre liberdade e opressão, entre aqueles que respeitam os direitos humanos e aqueles que tripudiam sobre esses direitos, entre aqueles que tratam as mulheres como animais e aqueles que as tratam como os seres humanos que de fato são.

São frases assim que você vai ver no vídeo acima proferidas em língua árabe e, vindas da boca de uma mulher! Wafa Sultan é psiquiatra e escritora, árabe, nascida na Síria, que emigrou para os Estados Unidos em 1989 e não tem medo de falar, e fala alto, contra o que ela chama de "choque entre a civilização e a barbárie", patrocinado pelo Islã e pelos muçulmanos.

Confesso que logo no início do vídeo fiquei esperando que ela usasse o mesmo tom correto, claro, destemido, para falar também da barbárie que acontece aqui do lado ocidental, mas talvez num outro vídeo, quem sabe? Mulheres assim, valentes, costumam não ter medo das próprias idéias...

O vídeo chegou para mim via outlook, de uma amiga, é de 2006. Fico pensando: por onde andará uma mulher assim? Nós precisamos tanto de vozes fortes! Descubro num blog que ela está escondida, como tantos outros: uma fatwa (uma ordem jurídica emitida por uma autoridade religiosa do Islã) condena a dra. Wafa à morte por qualquer um que julgue estar obedecendo à vontade de Alá. O edito foi pronunciado por conta de um debate recente no qual ela afirmava o direito da Dinamarca de republicar a caricatura do profeta Maomé nos jornais, o que aconteceu em fevereiro.

Wafa Sultan anda por aí, escondida, a voz calada. O mundo ficou mais silencioso, não acha?

enviada por Adília



26/03/2008 10:31

Justiça é o quê?

A tia do Ricardo morreu atropelada por um menino de 19 anos que dirigia um carro em altíssima velocidade. Junto com ela, morreu também uma menina que atravessava a rua. O rapaz não foi preso, na época, sequer perdeu a carteira de habilitação, anda por aí, sabe Deus de que jeito e a que velocidade...

Situações assim, além de sofrimento, provocam um sentimento quase que insuportável de impotência e fazem a gente questionar: a Justiça, afinal, é justa?

Talvez nem sempre seja, mas isso pode mudar. Justiça Reparativa é o nome do nosso desafio coletivo de construir uma justiça que promova a paz e não fomente o ressentimento. A Justiça Restaurativa é um "processo colaborativo que envolve aqueles afetados mais diretamente por um crime, chamados de ‘partes interessadas principais’, para determinar qual a melhor forma de reparar o dano causado pela transgressão", explica Damásio E. de Jesus, advogado em São Paulo, no artigo Justiça restaurativa no Brasil.

No nível coletivo, culpa não adianta sem reparação...os gregos estavam certos, mais uma vez...

E nós temos chance de saber um pouco mais sobre Justiça Restaurativa porque vem aí, trazido pela Palas Athena, uma das maiores autoridades sobre o assunto: Howard Zehr, professor de Sociologia e Justiça Restaurativa no curso de graduação em Transformação de Conflitos da Eastern Mennonite University em Harrisonburg, Virginia, EUA, e co-diretor do Center for Justice and Peacebuilding.

Não dá para perder...




enviada por Adília






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